
Cláudia Regina atualmente
Nascida em 1 de fevereiro de 1963, Cláudia Regina De Sá Dias é segunda filha de um casal de classe média. Durante a infância, teve que enfrentar situações de perda, como a morte de sua irmã. Quando completou 11 anos de idade, Cláudia ficou para sempre marcada; sofreu com a perda de sua irmã mais nova que nasceu com uma doença congênita, hidrocefalia. Seus pais, de classe média, sempre deram muito valor à educação, por isso grande parte de sua renda ia para pagar a escola. Até os 15 anos, estudou em um colégio católico e com essa idade, foi estudar no Colégio Bandeirantes, onde terminou os estudos, sendo sempre da primeira classe. Aos 17 anos, estava muito insegura em relação a qual carreira escolher. Resolveu prestar direito e medicina, e cursou as duas faculdades ao mesmo tempo, dedicando-se em tempo integral. Concluiu as duas faculdades, porém optou por exercer a carreira de médica. Aos 24 anos, se casou e, após 5 anos, teve sua primeira filha. Porém, antes de sua filha completar 2 anos, sofreu com mais uma perda, a de seu pai, aos 60 anos de idade. Quatro anos depois, engravidou de um casal de gêmeos, o que foi uma grande felicidade para a família. Infelizmente, após seus filhos completarem 1 ano de idade, ela e seu marido decidiram se divorciar. Cláudia, então, assumia o papel de mãe e pai, cuidando de seus filhos sozinha. Pouco depois, sua avó que completaria 99 anos e era um grande exemplo para Cláudia, faleceu… Em 2005, Cláudia foi surpreendida com o diagnóstico de câncer em um exame de rotina, um momento muito difícil em sua vida. Submeteu-se ao tratamento cirúrgico, e, hoje, está curada. Cinco anos depois, através de incentivo de amigos, resolveu iniciar a pós-graduação, na área de perícia médica. Hoje, Cláudia é uma mulher feliz, atende em seu consultório e cursa pós-graduação. Mesmo com todas as dificuldades que enfrentou, hoje, é uma mulher bem sucedida em todos os sentidos de sua vida: profissional, social, familiar e financeiro. Entrevistamos essa mulher guerreira, com uma brilhante história de vida, na intenção de mostrar o quão importante é nunca desistir e persistir em seus objetivos, e provar que a sabedoria é nosso bem mais valioso, e o único que nunca nos será tirado. Primeiramente, gostaríamos de agradecer sua disponibilidade em contar um pouco mais sobre sua história cheia de conquistas e superações, afinal você é uma mulher que merece destaque, já que driblou tantos desafios e agora é uma pessoa tão bem sucedida, tanto em relação a sua carreira, quanto em relação a sua vida familiar e social.
Para começarmos, como você caracterizaria sua infância?
Bom, minha infância não deve diferir muito da maioria das garotas de minha idade naquela época, brincando de bonecas, pulando, correndo e especialmente, gostando muito de teatro… A não ser pelo período difícil que tive que enfrentar, o nascimento e em seguida a morte de minha irmã mais nova. Para a minha idade, isso era muito complicado, fiquei triste, revoltada, mas tive que superar.
Com que idade você estava?
O período difícil a que me referi foi dos 7 aos 11 anos, essa era a minha idade quando ocorreu.
Para uma menina tão nova, deve ter sido muito difícil superar essa perda, não é mesmo?
Realmente, acontecem muitas coisas que nos entristecem, procuramos respostas e quando não as encontramos, ficamos revoltados… Quando amadurecemos nem sempre conseguimos, mas sempre tentamos encontrá-las.
Que tipo de respostas uma menina daquela idade buscava?
Procurava respostas que justificassem tanto sofrimento, que para mim era sentido como um castigo, e como Deus poderia castigar alguém que acabara de nascer? Não tinha sentido pra mim…
Que mudanças essa perda causou em você, naquela época e até os dias de hoje?
O vínculo de afeto e amor com minha mãe se fortaleceu mais ainda, pois sempre fomos muito próximas e tentava aliviar seu sofrimento como mãe. Com o tempo, o viver a cada dia fortaleceu minha fé, me fez não buscar tantas respostas e aproveitar cada momento da melhor forma possível.
Onde você estudou?
Bem, naquela época, lembro-me que a escola era escolhida em razão principalmente da localização. Estudei o primeiro grau em uma escola católica perto de casa e depois, cursei o colegial no Colégio Bandeirantes. Na minha família, saúde e educação eram prioridades, e, por isso, mesmo sendo um colégio um tanto caro, meus pais me incentivaram e apoiaram para que cursasse o Colégio Bandeirantes, pois estariam investindo em meu futuro.
Nossa, sabendo que seus pais dedicavam tanto para a sua educação, você não se sentia um tanto pressionada e na obrigação de impressioná-los?
Na verdade não. Não sei se era um ponto totalmente negativo do colégio naquela época, mas a cobrança era muito maior lá dentro, então, eu preferi encarar o Band como um grande desafio.
E não era difícil para você estudar em um colégio tão rigoroso?
No primeiro ano de Band, levei um “choque”. Era bem difícil manter as ótimas notas de meu antigo colégio, mesmo estando na primeira classe, era impossível. Depois, fui me acostumando com o colégio, mas não gostava do fato de as classes não serem mistas e a competição lá dentro às vezes me incomodava. Hoje, vejo que saí preparada para a vida…. o mundo é competitivo.
Já que você falou em Colégio Bandeirantes, que mensagem você deixaria aos atuais alunos de lá?
Eu diria que o Colégio Bandeirantes dá as ferramentas para nós termos êxito na vida, não só profissionalmente, mas na relação com as pessoas. Hoje, tenho muito orgulho de ter estudado no Colégio Bandeirantes, e sei que muito do que já conquistei devo à ótima educação que recebi.
Estudando em um colégio tão bom, creio que seu desejo era entrar em uma boa faculdade. Como foi que você se percebeu médica?
Na verdade, a indecisão pela carreira a escolher me fez optar em prestar direito apenas na USP, e medicina nas faculdades particulares. Estava com muitas dúvidas, então como fui aprovada nos dois cursos, optei por fazer os dois cursos simultaneamente.
Quer dizer então que você se dedicava aos estudos em tempo integral. Não era difícil para você conciliar o estudo com sua vida social?
Na verdade, no início, achei que antes de terminar o primeiro semestre, desistiria de uma delas… Era uma loucura! Mas, quando percebi que na verdade elas se completavam, ou seja, cada uma me atraía de uma forma diferente, resolvi respeitar meus limites, não só estudar, mas levá-las adiante… Concluí as duas faculdades e conheci muitas pessoas, fiz muitos amigos. Além dos cursos serem diferentes, estudar à noite também era diferente, participava de muitas reuniões no centro acadêmico, super empolgada!
Você chegou a se casar? Teve filhos?
Bom, dentre as muitas pessoas que conheci na faculdade de Direito, estava meu namorado, com quem me casei depois de algum tempo. Tive três filhos, uma filha mais velha e um casal de gêmeos, porém me divorciei depois de algum tempo. Creio que meus filhos são as pessoas mais importantes na minha vida, e casar, ter filhos e constituir uma família, sempre foi um sonho meu, uma prioridade na minha vida.
Quer dizer então, que família sempre foi prioridade para você. Como você conciliou sua vida familiar e profissional? Você teve que fazer escolhas difíceis?
Bom, quem é mãe sabe que por nossos filhos abrimos mão de muitas coisas na vida, especialmente em termos profissionais… Com certeza, tive que tomar decisões muito difíceis na minha vida, porém não me arrependo de nenhuma delas, pois para mim, família é a coisa mais importante da vida e vem antes de trabalho ou quaisquer outras oportunidades.
Como você lidou com outras perdas em sua vida? Como, por exemplo, a de seu pai e sua avó, que sempre foram muito próximos de você.
Bem, perdas são difíceis, e o luto por cada uma delas deve ser respeitado. Perder pessoas que amamos nos faz pensar melhor na vida, e na importância de vivermos intensamente. Meu pai sempre teve o desejo de ter um filho ou, pelo menos, um neto homem… Quando morreu, minha filha mais velha completava dois anos, e ele não chegou a conhecer o neto e a irmã gêmea. Via em meu pai uma pessoa forte, capaz de resolver muitas coisas e perdê-lo me deu muita insegurança e medo, mas seguindo os princípios que aprendi com ele, segui minha vida e pensando o quão orgulhoso ele estaria de mim se estivesse aqui. No caso de minha avó, me senti da mesma maneira, pois ela era um exemplo de vida para mim, já que viera da Espanha com 14 anos sozinha e enfrentara diversos desafios no Brasil. Na época em que faleceu, completaria 99 anos em 2 meses… Realmente, foi um momento muito difícil na minha vida, pois, desde pequena fui muito próxima dela e não conseguia me imaginar vivendo sem ela. Para meus filhos também foi uma situação muito difícil, já que estavam com 6 e 10 anos, e também eram muito apegados à bisavó… Além de tentar enfrentar essa perda, também tive que ajudar meus filhos e minha família a superar esse momento, e acredito que o fato de estarmos tão unidos nos ajudou a enfrentar e superar essa difícil perda.
Bom, houve um período em que você teve sua saúde comprometida, não é? Em que época e como você lidou com isso?
Sim, em 2005, fui surpreendida por um câncer, que veio numa hora péssima de minha vida, já que estava cuidando de filhos pequenos… Para toda nossa família foi um baque ouvir esse diagnóstico, pois a palavra “câncer”, por si própria já tem um poder psicológico muito grande. Realmente, foi muito difícil para mim e minha família lidar com isso, principalmente por causa das crianças, e de minha filha mais velha que já entendia muito bem as coisas. Como primeira reação todos ficamos assustados, porém eu sabia que não adiantaria nos lamentarmos, então, por incrível que pareça, eu fui a que agiu mais racionalmente nesse momento, já que não tinha a quem recorrer, pois minha mãe estava muito fragilizada, e tanto ela quanto meus filhos não poderiam me ajudar muito. Foi aí que resolvi enfrentar a doença de frente; não parei de trabalhar durante o tratamento, e depois de cirurgias e remédios, finalmente me via livre da doença… Por todos, eu era considerada uma vencedora, inclusive por meus pacientes, e, realmente, eu era…
Você pretende se casar novamente?
Bom, sim, eu pretendo, porém não nesse momento, em que estou investindo em minha carreira profissional… Para mim, como disse, família é muito importante, e estou satisfeita com a minha, acho que não estou no momento ideal, porém com certeza, logo, pensarei mais nesse assunto…
Bem, como você definiria sua vida hoje, em termos profissional, familiar e pessoal? Você se sente realizada?
Essa é uma pergunta difícil, pois até iniciar recentemente meu curso de pós-graduação, sentia que faltava alguma coisa… Interrompi minha vida acadêmica, depois que me formei, para trabalhar e construir uma família… Isso tem um custo… Em termos familiares, me sinto realizada, e hoje acredito estar mais perto da minha realização profissional.
Em todos os aspectos de sua vida, no meio de tantas perdas, dificuldades, o que mais te marcou e o que você levou como lição de vida?
Bom, minha irmã, pai e avó, cada qual no seu papel, foram pessoas muito importantes na minha vida… Lógico que o fato de perder pessoas tão especiais nos deixa tristes, inseguros. Mas, com o passar do tempo, a gente se vê imitando as qualidades e, às vezes, também, os defeitos deles… Eles continuam presentes na nossa vida, para sempre. Garra, determinação, coragem, amor, sempre estiveram em minha vida, e tento passar isso para meus filhos, além da maior lição que aprendi que o segredo de encontrarmos a felicidade e realização plenas é usar a inteligência com sabedoria. O horizonte pode ser visto por todos, mas, de que altura dependerá de como trilhará seu caminho…
Como você definiria a Cláudia como mãe?
Bem, a maternidade, seguramente foi uma das minhas mais importantes realizações… Dentro de uma vida atribulada e muitas vezes sozinha após minha separação, sem dúvida, existiram muitas falhas minhas, mas sei que meus filhos acreditam que têm o melhor de mim.
Você se julga uma vencedora?
(risos) Creio que vencedora não seja a melhor palavra, pois torna a vida uma “competição”, mas sim vitoriosa frente a muitos obstáculos que, sinceramente, nunca imaginei que enfrentaria… Lembro de situações em que me sentia à beira de um precipício e aprendi a recuar em certos momentos para dar um salto maior…
Você segue alguma religião? Pratica algum ritual religioso?
Bem, sou cristã, Jesus está no nosso coração. Mais importante que praticar rituais religiosos, para mim, é viver cada dia, sentindo, vendo, a presença do criador nas pessoas, na natureza, nas coisas mais simples.
Finalmente, o que você gosta de fazer para descansar? Tem algum “hobbie”?
Se eu pudesse escolher, independente das condições, eu faria aula de dança e teatro pelo menos três vezes por semana e, se possível, caminharia na praia diariamente… A primeira imagem que me vem à mente quando me pedem para imaginar um lugar especial é a praia, o som das ondas do mar, céu azul, a areia de diferentes cores, falésias, golfinhos… Viajar, conhecer novas pessoas e lugares, com certeza esse é meu hobbie preferido!
E o que planeja para a Cláudia daqui pra frente? Algum sonho especial?
Sim, desejo minha realização, como já mencionei, mas sempre, cercada pelos que eu amo e vou amar. Meus filhos, minha família, meu cachorro, e… e conhecer novas pessoas, alguém especial para compartilhar comigo tantos momentos que virão. Imagino família, filhos, netos, natais, etc, etc… No futuro, voltamos a falar, ok?
Bom, muito obrigada, mais uma vez, por essa maravilhosa entrevista, e do fundo do nosso coração, desejamos que você realize todos os seu sonhos e seja muito feliz.
Ana Julia , n.o 03
Larissa Reis, n.o 19
Maria Beatriz, n.o 26
8 ano E